[ As Palavras ]

outubro 11, 2017



As Palavras
foto: Tobias Zeising

As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpas. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes.
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam... As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.
E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do disse ou tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do verbo. E as palavras escorrem tão fluidas como o "precioso líquido". Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envoltos também num murmúrio manso, represo e conciliador... E tudo isso atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares.
Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não ouça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça.
Daí que seja urgente moldar as palavras para que a sementeira se mude em Seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do ato.
Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão.


[José Saramago], «As palavras», Deste Mundo e do Outro, 5.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 1997



[ "(...) O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão." ]

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18 Comentários

  1. Olá. José Saramago no seu melhor, as palavras são explosivas ou calmantes, depende de quem as pronuncia, as palavras formam frases, muitas destas são automatizadas acompanhadas com gestos e sorrisos igualmente automatizados, palavras carinhosas ou ofensivas, são palavras que no elevam ou nos deita abaixo, bem...existe de tudo que dá pano para mangas.
    Continuação de boa semana,
    AG

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  2. Existem palavras com tanto ódio e crueldade, proferidas por seres diabólicos, em que o melhor que podemos dar como resposta é o nosso silêncio.

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  3. António,
    Vou, sim.
    Os péssimos tempos que estou a passar, fizeram-me tomar agora esta decisão.
    Porém, continuarei a ir aos blogs que gosto, se a minha disposição e tempo o deixar.
    Depois explico melhor os motivos.
    Beijinhos. :)
    A.

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  4. O blog vai ficar aberto. Porém está fechado.
    Se é que me faço entender. :)

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  5. Tome cuidado com o Innamorato.

    Todas o consideram um 'homem' maravilhoso. O GRANDE TRUQUE --- Mostrar-se muito amigo.

    Anda simplesmente no ENGATE.

    Innamorato é só um dos numerosos nicks que usa.

    Esse gajo vale ZERO.

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    Respostas
    1. Dora,
      A sua mensagem caluniosa, passou ontem por engano
      Não preciso tomar cuidado, já que ele não é do género "engate". É um homem respeitador e muito bom.
      Considero-o meu amigo e exijo que o respeite.
      Sem mais.

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  6. Tempo... aguenta. A vida tem o seu motivo. Eu descobri, que a vida não nos tira, ela nos livra...
    #força

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  7. Dora,
    Se por acaso, aqui vier de novo leia.
    Não entendi porque deixou aqui aquele comentário e por essa razão não o publiquei.
    Como não tem e-mail no seu perfil, pode ver o meu perfil (que vai ficar uns dias visível) e gostava que entrasse em contacto comigo porque queria perguntar-lhe uma coisa. Obrigada.

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  8. É verdade, Mar.:)
    Obrigada por tão belo comentário.
    Beijinhos

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  9. Paulo,
    Tanto a vida como a morte têm os seus motivos.
    Obrigada.
    Beijinhos

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  10. Olá, senhora das belas publicações criativas que encantam, para quando novas publicações?.
    AG

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  11. Palavras geniais!...
    Um daqueles posts, para ler e reler! Adorei o texto, que ainda não conhecia!
    Mais uma fantástica escolha, por aqui!
    Beijinho
    Ana

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  12. Ana,
    Fico contente, por teres gostado e muito obrigada!
    Bom domingo e beijinhos.
    :)
    Ana

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