![]() |
| Fotografia de Patrick Xiong |
«Se estivesses aqui, agora mesmo, seguramente estaria a violar os botões da tua roupa com os meus dedos ansiosos para tocar o teu corpo, aquecê-los na tua pele e misturá-los com o teu cheiro. Não estás, mas estou a imaginar-te. Retrato-me com vida, com movimentos e palavras: as tuas obscenas insinuações, a tua desmedida imaginação sempre por detrás da língua. Os teus olhos são capazes por si só de violar qualquer mulher, de penetrá-la até ao rubor, de tão lascivos que se tornam.
Basta segurares-me pelas ancas para começar o incêndio. Sinto-me perder o equilíbrio, tão cheia de tonturas fico, com as tuas ameaças doces e obscenas. O quê? diz isso outra vez…»
[Pedro Paixão] excerto de «Alexandra Maria», in “Noiva Judia”
Basta segurares-me pelas ancas para começar o incêndio. Sinto-me perder o equilíbrio, tão cheia de tonturas fico, com as tuas ameaças doces e obscenas. O quê? diz isso outra vez…»
[Pedro Paixão] excerto de «Alexandra Maria», in “Noiva Judia”
![]() |
| o Porto é... cidade encantada |
![]() |
| o Porto é... manhãs de nevoeiro |
![]() |
| o Porto é... dias que vão frios |
![]() |
| o Porto é... as belas artes |
![]() | |
| o Porto é... espaços sentidos |
![]() |
| o Porto é... o cair da noite |
![]() |
| o Porto é... romance |
![]() |
| o Porto é... sentir a cidade.... |
"Conceição Ferreira é a autora do trabalho de Art Photography "o Porto é...", premiado e representado em várias colecções particulares em Portugal, Suíça, Áustria, Alemanha, República Checa, Canadá e outros. O trabalho fotográfico da autora é resultado da sua paixão por histórias e lugares, dando primazia à expressão de sentimentos em relação à simples descrição objectiva da realidade."
![]() |
| foto: Akif Hakan Celebi |
(...)Em momentos como agora, lembro-me de ti com muita força, com detalhes. Saber que existes neste mesmo instante, lá longe, inunda-me.
Sinto a tua falta. Sei que se começasse agora a enumerar as tuas qualidades, haveria de me perder em alguma, enlevado, antes de conseguir dizê-las todas. Ou talvez não seja possível esgotá-las. Foi precisa esta distância para reconhecer aquilo que, aqui, me parece tão evidente.
No entanto, há horas em que não estou a pensar em ti. Nesse tempo, ocupo-me de assuntos que estão à distância do braço, basta levantar o nariz para olhá-los de frente. Ainda assim, mesmo então, sei que este é um mundo em que existes. Por baixo de tudo, quase sempre sem palavras, há essa certeza. Seria insuportável um mundo em que não existisses.(...)
[José Luís Peixoto]
As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem.
As palavras pedem desculpas. As palavras queimam. As palavras acariciam. As
palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras
estão ausentes.
Algumas
palavras sugam-nos, não nos largam... As palavras aconselham, sugerem,
insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo
gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão
cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por
isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem.
Há muitas palavras.
E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras,
em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do
disse ou tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham
sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São
brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem
louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos
discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e
por essa via entram na imortalidade do verbo. E as palavras escorrem tão
fluidas como o "precioso líquido". Escorrem interminavelmente, alagam
o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o
dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra
segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos,
envoltos também num murmúrio manso, represo e conciliador... E tudo isso
atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares.
Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita
para que se não ouça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma,
afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva
fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e
olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça.
Daí que seja urgente moldar as palavras para que a sementeira se
mude em Seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte - ou de salvação.
Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do ato.
Há também o silêncio. O
silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina,
observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e
fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as
palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas
só o trigo dá pão.
[José Saramago], «As palavras», Deste Mundo e
do Outro, 5.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 1997
[ "(...) O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão." ]













